sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Resenha - Django Livre



Por Caio Colagrande

A chuva que atingiu São Paulo ontem (quinta-feira) causou estragos por toda a cidade: alagamentos, congestionamentos acima da média, casas e carros inundados e muito, muito caos (inclusive no Metrô e nas linhas da CPTM, que estavam um inferno). À despeito de tudo isso, a única coisa que realmente me afetou foi que cancelaram a aula na faculdade. E eu não estava com vontade de voltar para casa tão cedo. O que fazer então?

Resposta: óbvio, ir ao cinema! Depois do fracasso da minha última visita ao Bourbon, decidi me redimir e assistir a um filme bom. Na relação custo-benefício (no quesito “custo” dá pra encaixar o ingresso 3D), fiquei entre as versões 2D de “Lincoln” e “Django Livre”. Acabei optando pelo segundo, ainda influenciado pela opinião de uma professora minha durante o tempo em que me decidia ir ou não pra casa.

Sinceramente, não sabia o que esperar da mais nova produção do diretor Quentin Tarantino. Alguns amigos já haviam me falado que era ótimo; outros, que se decepcionaram. Decidi tirar a sorte.

O trio "parada dura" de Django Livre;
história simples, atuação impecável!
Pela sinopse, achei que fosse uma história de drama ou suspense, mas, desde as primeiras cenas (incluindo a escolha perfeita para trilha sonora do início), deu pra sacar que se tratava de uma comédia. O roteiro é bem simples: na época dos “westerns” estadunidenses, um caçador de recompensas (Dr. King Schultz, interpretado brilhantemente por Christoph Waltz) está atrás de um trio procurado pela polícia - mas, como ele não conhece os rostos dos criminosos, liberta o escravo Django (Jamie Foxx, igualmente bem no papel), que trabalhou para os procurados, a fim de lhe ajudar. Juntos, começam a formar uma dupla de meter medo em qualquer foragido. Depois de passarem um “inverno lucrativo”, parafraseando o filme, vão atrás da esposa de Django, ainda escrava, para tentar libertá-la. Ela trabalha para Calvin Candie (de um inspiradíssimo Leonardo DiCaprio), conhecido dono de terras.

Os filmes de Tarantino são conhecidos, entre outros atributos, por não observarem pudor pelo derramamento de sangue – e, aqui, não é diferente. Nesse ponto, eu preciso abrir parênteses, até porque a comparação é inevitável: “João e Maria – Caçadores de Bruxas” e “Django Livre” competem lado a lado no quesito “a-cabeça-estourou-ai-meu-Deus-estou-encharcado-em-sangue”. A grande diferença: o primeiro é fraco, com atuação fraca e 3D fraco; o segundo é ótimo, com atuação ótima e direção ótima. Se estiver em dúvida sobre qual assistir, não hesite.

Bela atuação de Samuel L. Jackson, mas confesso que
só percebi que era ele depois de pesquisar pelo elenco...
Achei muito interessante como Tarantino abordou a escravidão, tanto a relação negros-brancos quanto a negros-negros. Ali, ficou bem clara a intenção de passar uma mensagem de que a cor da pele não faz a pessoa ser boa ou má. Tanto que, na narrativa, há negros maus e brancos bons. A visível admiração do “preto da casa”, Stephen (eu não tinha notado durante o filme, mas é o Samuel L. Jackson em atuação impecável!), pelo sistema escravocrata contrasta com a busca incessante pela liberdade e reconhecimento dos negros enquanto seres humanos – vale lembrar que, na época retratada por “Django”, cavalo só podia ser montado por brancos. Para a personagem, tanto faz se você for colocado pra assar no forno, o que importa é seguir as regras.

O humor é muito inteligente e sutil – não aquele tipo pastelão, mas, muitas vezes, de situações inusitadas até para os padrões da época. As interpretações dos atores principais são ótimas e flui de maneira completamente natural – se você já leu os outros textos, saberá que essa é questão a qual considero imprescindível a uma boa produção. Enfim, vale muito assistir. Vale também a indicação ao Oscar de melhor filme - mas, na minha opinião, não leva.