domingo, 10 de fevereiro de 2013

Resenha - Os Miseráveis



Por Caio Colagrande

Você já tentou conversar com um amigo apenas cantando? Isso mesmo, em vez de falar “Oi, bom dia!”, cantarolar algo como “Ooooi, boom dia!!!”? Bem, mesmo que nunca tenha feito isso, vamos combinar que seria meio estranho agir assim por uns 20 minutos, certo? Agora, imagine um filme inteiro desse jeito. Diferente, né?

Diferente, mas não impossível. O filme “Les Miserables” (ou “Os Miseráveis”, em português”) é mais ou menos assim. “Mais ou menos” não, é inteiro assim. O musical, adaptação da obra do escritor francês Victor Hugo – e da também adaptação para a Broadway – para as telonas tinha uma tarefa insossa: cantar os diálogos, além das músicas propriamente ditas. Difícil. Cá entre nós: ficou espetacular!

Anne Hathaway em uma memorável atuação.
Não à toa, recebeu oito indicações ao Oscar, incluindo o melhor filme, ator e atriz coadjuvante. Não sei se leva o principal, mas estou torcendo animadoramente para Anne Hathaway faturar o prêmio de melhor atriz coadjuvante – mas não vamos estragar a surpresa, já te conto o porquê da minha opinião.

A trama conta as desventuras de Jean Valjean (interpretado por Hugh Jackman), ex-detento que ganhou liberdade, mas optou por fugir e recomeçar a vida na França do início do século XIX. O problema é que o inspetor Javert (Russell Crowe) não vai descansar até recapturá-lo. Após alguns anos, já estabelecido em seu disfarce, Jean Valjean reencontra o implacável (sim, implacável mesmo) perseguidor. Depois de se confrontar com várias situações, conhece Fantine (da nossa Anne) - pobre moça que envia todo o salário para a pequena filha Cosette -, e lhe promete, em seu leito de morte, cuidar da menina. A partir daí, o pano de fundo para a história são as revoltas populares, e não posso contar mais para não me empolgar e estragar tudo.

Não sou ator, mas, durante o filme, tentei imaginar-me um e cheguei à seguinte conclusão: se interpretar um diálogo e torná-lo completamente natural a ponto de se esquecer de que se trata de um texto pronto já é difícil, cantá-lo é um verdadeiro desafio.

Ótima atuação, deixou a desejar no lado musical;
valeu Jackman, mas não foi dessa vez.
Desafio este que, infelizmente, Hugh Jackman não conseguiu transpassar, na minha opinião. Embora sua atuação seja ótima – as expressões faciais, o olhar e a forma de se movimentar estavam dignas -, ele pecou na atuação musical. Além de desafinar em vários trechos, não passou aquela naturalidade da qual falamos há pouco. Simplesmente não casou uma coisa com a outra. Como ele aparece em boa parte do tempo, comprometeu um pouco a qualidade. Infelizmente, porque, no mais, foi muito bem.

Russell Crowe é menos ativo na trama que Jackman, mas, quando aparece, dá conta do recado. Garantiu-se na afinação, interpretou direitinho e não pareceu forçado. Foi “comportado”.

Mas ninguém ganha da Anne Hathaway. A atriz participou de uns 40 minutos, no máximo, mas a sua atuação foi magnífica – ou qualquer outro adjetivo que você queira usar no lugar e que mantenha o sentido. Ela caiu como uma luva na personagem, compartilhando com o público a sua dor, fazendo com que todos entendessem como era sentir-se fraca, sem esperanças. Alie-se à sua boa voz, que foi muitíssimo bem quando exigida, e voilà, temos uma potencial ganhadora do prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Oscar. Estou na torcida!

Quanto aos demais, fiquei impressionado com a atuação dos atores, principalmente os mirins, que foram extremamente naturais e cantaram muito bem. Destaque para o pequeno Daniel Huttlestone, que interpretou o corajoso Gavroche. Amanda Seyfried e Eddie Redmayne fizeram bem seu trabalho de jovens apaixonados e – olha se não tenho uma surpresinha! Helena Bonham Carter, a Belatriz de Harry Potter, participa como coadjuvante! Sempre gostei da sua interpretação no filme do bruxo, e aqui, também, ela ganhou vários pontos comigo!

O filme, no geral, é muito bom! Para mim, o diretor acertou ao direcionar o enquadramento nos rostos – então, praticamente não se tem panorâmicas de paisagens – vez ou outra aparece. Achei acertado, uma vez que a trama é centrada nas personagens e suas emoções. Só acho que leva um tempinho até se acostumar com o ritmo cantado dos diálogos, e a primeira cena – que, permitam-me opinar, tinha tudo pra ser sensacional e foi arruinada – poderia ter servido como “introdução” à cantoria, com um pouco mais de falas “normais”, isto é, que não fossem cantadas.

Vale a audiência, e muito. Mas prepare-se, são 2h40 de filme, então, vá ao banheiro antes, compre alguma coisa para comer e beber e divirta-se – muito!